quarta-feira, 17 de abril de 2019

Refugiados venezuelanos relatam a difícil missão de recomeçar


Refugiados no Recife desde o final do ano passado, grupo de oito venezuelanos relatam dificuldades de encontrar emprego e falta de alimentação



Em um apartamento pequeno, no centro do Recife, oito pessoas (mulheres e homens) dividem o mesmo teto, as mesmas histórias e a mesma esperança de conseguirem uma oportunidade melhor para reconstruírem suas vidas. São refugiados que vieram da Venezuela em busca de ajuda no Brasil, mas que continuam enfrentando sérias dificuldades para sobreviver. 

Sem emprego, Maria José (nome fictício), era bailarina no seu país de origem, mas hoje não sabe como enviar dinheiro para sua mãe, que cuida dos seus filhos. “Tenho muita esperança que as coisas melhorem na Venezuela, foi muito difícil ter deixado tudo para trás. Saí porque não tínhamos nem o que comer, não tínhamos mais nada”, afirmou. Na residência, sem comida (apenas com cuscuz) há três dias, a água mineral é doada por vizinhos, e alguns cômodos estão sem energia. Na cozinha, um saco com latinhas amassadas para serem vendidas.

Eles fazem parte do grupo de 102 pessoas acolhidas pelo Programa Pana, da Cáritas Brasileira, que chegaram ao Recife, no fim do ano passado. Outro ponto reclamado pelos venezuelanos é a falta de orientação e suporte para conseguirem um emprego. “Eles estão tentando a vida em uma condição diferente da que lhes foi prometida. Muitas das roupas, alimentação e até medicamento são fornecidos através do Movimento de Voluntários Independentes que dão suporte de alguma forma”, afirmou o coordenador do grupo Jerônimo Matos. 

A reportagem entrou em contato com a Cáritas Brasileira. A entidade, que possui atuação social na defesa dos direitos humanos, informou que sobre a questão da alimentação seria resolvida a partir desta quarta-feira. “Os alimentos são enviados pelas Forças Armadas e com ajuda voluntária nós recebemos e fazemos a divisão. São 17 kg de proteína e 37 kg de alimentos perecíveis que são distribuídos igualmente para todas as famílias num periodicidade de 15 dias”, explicou o gestor de parcerias da Cáritas, Célio Meira. 

Ainda segundo, o gestor, é de conhecimento da instituição que o quantitativo pode não ser o suficiente para as necessidades de cada família, mas é necessário que os refugiados acionem a Casa de Direitos, localizada no bloco A da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap). “Nós recebemos um carregamento na semana passada e já foi acordado com todos que a entrega será feita amanhã (ontem). Uma vez não tendo comida, eles precisam nos sinalizar”, completou. Em relação à estrutura do apartamento, Célio Meira também ressaltou que qualquer tipo de problema precisa ser comunicado a equipe da Cáritas para que eles enviem um responsável para solucionar - no total, são 12 imóveis alugados pela instituição com contrato de um ano. 

Sobre a inserção profissional dos venezuelanos no mercado de trabalho, Célio afirma que tem sido feito esforços para que todos sejam contemplados, mas que é um trabalho “de formiguinha”. Dos 102 refugiados, 24 são crianças e adolescente já matriculados na rede pública, e 17 adultos em empregos formais. “A Cáritas trabalha em articulação com o Ministério do Trabalho. Estamos regularizando a questão do e-social e feito campanhas junto às empresas para sensibilizá-los e integrar estas pessoas no mercado. É uma demanda diária de atualização de currículo no formato brasileiro. Muitos têm cartas de recomendação e não sabem como usá-la.”, declarou. 

Em paralelo, o grupo Movimento de Voluntários Independentes afirmou que está em diálogo com as universidades para que audiências públicas sejam promovidas. “Queremos que todos os atores envolvidos neste tema passem a agir de forma efetiva. Precisamos promover campanhas de emprego para estas pessoas. No dia 24 de abril teremos uma audiência na UPE para tratar do assunto”, afirmou Jerônimo. A Cáritas Brasileira também informou que existe um canal formal através de edital para voluntários, e que grupos independentes não estão ligados ao trabalho desenvolvido pela entidade.

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