terça-feira, 24 de setembro de 2019

Phelipe Rodrigues viveu temporada de sufoco e glórias


Nadador pernambucano chegou a ser considerado inelegível no paradesporto e teve a presença no Parapan ameaçada. Mas acabou se tornando "o cara" em Lima




A maior estrela dos últimos Jogos Parapan-Americanos 2019 teve um rápido retorno às origens. Ontem à tarde, o nadador pernambucano Phelipe Rodrigues, ganhador de nada menos do que sete medalhas de ouro e uma de bronze na edição do evento em Lima, no Peru, foi homenageado pela Secretaria de Educação e Esportes do Estado. Em breve passagem por sua terra natal, o paratleta celebrava não somente o bom momento profissional, mas também a evolução pessoal. Quesito que o próprio nadador considera ter sido fundamental para as proezas recentes.

Até chegar a essa sensação de dever cumprido na temporada, com excelente desempenho, Phelipe, hoje com 29 anos, passou por sufoco. Primeiramente, o pernambucano sequer sabia se estaria hábil a disputar o Parapan. "Eu fui considerado inelegível. E esse ano foi bem complicado, porque, no meu caso, eu estou dentro ou fora. Não tem outra categoria para mim. Todos os atletas estão passando por reclassificações e comigo não foi diferente, mas minha patologia dentro da piscina certamente tem déficit. Na minha prova tem pessoas com menos deficiência do que eu", ressaltou.


"Fizemos protestos no dia seguinte, reavaliações, e voltei para a minha categoria. Só que com um ‘review' para a próxima aparição internacional, que seria o Pan. Então eu fiquei de abril até o Pan com aquela interrogação e insegurança na cabeça. Tive que cuidar da parte física, mental e ainda lidar com esse problema, porque eu não sabia se eu ia continuar, se ia sair... Eu me reuni com meu técnico, psicólogo e pensei: 'o que eu posso fazer?'. E a única coisa seria treinar. A equipe do CPB (Comitê Paralímpico Brasileiro) com certeza vai me querer, então eles vão fazer o que puderem", contou Phelipe.

Mesmo com tantas incertezas, o nadador não se deu por vencido. Continuou praticando, a despeito da insegurança. "Treinei o máximo que eu pude, mesmo sem saber se eu poderia competir. Cheguei ao Parapan, fui reavaliado e dei uma relaxada", lembrou o pernambucano, refletindo sobre o período anterior às suas conquistas em Lima. Depois de brilhar no evento continental, Phelipe ainda teve que voar para Londres, onde disputaria o Mundial de Natação Paralímpica. Os obstáculos acabaram se refletindo em seu desempenho. Na capital inglesa, ele conseguiu uma medalha de prata nos 50 metros livre da classe S10.

"Fiquei bem longe do meu melhor tempo e acabei com a prata. Foi bem cansativo, não vou mentir, mas tive a certeza de que cheguei lá na minha melhor forma. Antes tinha comentado com o meu técnico que estava cansado por conta do Pan. Nadei oito provas, fora a logística, pela competição ser bem extensa. Cansei um pouco, mas nada justifica, é a vida. Olho para a imagem maior, que é a única coisa que me falta na carreira, ser campeão paralímpico. Mas fiquei feliz de não ter repetido o quarto lugar de 2012, quando por pouco não fui para o pódio", destacou.

Apesar de não ter conquistado o ouro na Inglaterra, Phelipe não tem reclamações acerca do país. Muito pelo contrário. Afinal, foi em território britânico que o nadador se reencontrou na carreira. "Morei na Inglaterra por dois anos (de 2012 a 2014), na cidade de Manchester. Deu uma subida de patamar. Não em questão de performance, mas fez com que eu olhasse para a natação com outros olhos. Eu estava começando a desgostar da natação e lá eu voltei a gostar. Hoje eu a amo mais do que nunca. Eu estava muito acomodado, essa é a palavra, aqui no Brasil", explicou.

"Era o segundo melhor do mundo, muito bajulado, todo mundo falava sobre mim e pensava: para quê eu vou treinar se estou em segundo? E esse comodismo me deixou incomodado. Saí do País e eu era apenas mais uma pessoa lá. Foi um período de reflexão e maturidade. Voltei para o Brasil um Phelipe completamente diferente", garantiu o recifense, que não se vê ainda na sua melhor forma técnica. "No auge eu não estou, mas ainda vou chegar lá, sem dúvida. Hoje eu posso dizer que estou no meu auge mental. Teve muita coisa que aconteceu neste ano. Aprendi bastante", avaliou.

Embora esteja otimista para os Jogos de Tóquio-2020, o nadador não vê o Brasil entre os primeiros colocados. "Top 5 eu acho meio difícil, porque na Paralimpíada do Rio ficamos em sétimo, mas a Rússia não foi. Então acho que a gente fica entre os nove", projetou o nadador, que coloca o País como um dos que mais investe nos esportes. "Já viajei para vários países, conversei bastante com outros atletas e digo com propriedade: o investimento do Brasil é bem maior do que 80% dos países no mundo. Muita gente diz que o Brasil não investe, mas é por falta de conhecimento", reiterou o astro maior do Parapan-2019.

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