quinta-feira, 14 de maio de 2020

Médicos do Rio continuam sem salário em meio a pandemia


O pagamento de março deveria ter caído no dia 20 de abril, mas até agora não caiu

Médicos usando protetores faciais

Médicos, enfermeiros, técnicos, porteiros e faxineiros de diversas unidades de saúde do Rio de Janeiro continuam trabalhando sem receber salário em meio à pandemia do novo coronavírus.

O estado só perde para São Paulo em número de casos e mortes confirmadas da doença: foram 18.486 pessoas infectadas e 1.928 óbitos até esta terça-feira (12).

Na rede estadual, o atraso de salários é a realidade de pelo menos três unidades de pronto atendimento (UPAs), em Botafogo, Taquara e Copacabana –esse último bairro, coincidentemente, é o que tem a maior quantidade de casos e mortos na capital fluminense.


O pagamento de março deveria ter caído no dia 20 de abril, mas até agora não caiu. Nesta segunda (11), a Justiça do Trabalho deu 48 horas para que o governo Wilson Witzel (PSC) repasse os valores e mais 24 horas para que a organização social Viva Rio pague os funcionários.

"Justamente em um momento em que os médicos desse país são fundamentais para conter uma pandemia de proporções nacionais e globais arriscando as próprias vidas, não podem ficar sem salário, que é o mais básico de seus direitos trabalhistas e, neste momento, já trabalham em condições de extrema pressão", escreveu a juíza Cristina Almeida de Oliveira.

Diante da incerteza, médicos buscam colegas que queiram substituí-los nos plantões e tentam migrar para a rede privada. É o caso de Priscila (nome fictício), que já tem três entrevistas de emprego marcadas em uma rede de hospitais particulares nesta semana.

"O salário é parecido, mas na UPA não tem garantia nenhuma", diz. Esses médicos recebem cerca de R$ 900 a cada jornada de 12 horas em dias úteis e, como são contratados como pessoa jurídica (PJ), só ganham quando trabalham.

Na rede municipal do Rio, ao menos 20 clínicas da família no Méier (zona norte) e em Santa Cruz (zona oeste) também tiveram atraso nos salários de março e abril, mas já receberam, segundo o sindicato Sinmed e o coletivo de médicos Nenhum Serviço de Saúde a Menos.

Há ainda várias unidades de saúde básica geridas pela empresa municipal RioSaúde que têm recebido os pagamentos errados. Na clínica da família da Rocinha, por exemplo, um médico diz que ganhou 25% a menos em março.

A empresa disse que corrigiria o erro na folha de abril, mas não só não corrigiu como pagou cerca de R$ 100 a menos. Também não veio a gratificação de 20% prometida pelo prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) aos profissionais de saúde em razão da pandemia.

"Os profissionais estão trabalhando, esperando salário, entram em contato com o RH [departamento de recursos humanos] da RioSaúde e o máximo de resposta que recebem é: desculpa, vamos te pagar daqui a dois meses", diz o presidente do Sinmed, Alexandre Telles. Segundo ele, erros nos pagamentos da empresa são recorrentes há anos.

A pior situação, porém, tem sido a de porteiros e funcionários da limpeza. Terceirizados, muitos deles estão há dois meses ou mais sem receber. É o caso, novamente, das unidades de atenção básica administradas pela RioSaúde e até do Hospital Municipal Ronaldo Gazolla, referência para o tratamento de coronavírus.

Diante do atraso, médicos, enfermeiros e outros profissionais começaram a se organizar para doar cestas básicas a esses funcionários. Em uma clínica da família da Rocinha, fizeram uma vaquinha para os cerca de quatro porteiros e quatro faxineiras, que só receberam R$ 100 pelos serviços de abril.

Questionada, a Secretaria Municipal de Saúde afirmou que começou nesta segunda e termina nesta quarta (13) de fazer os repasses que faltavam para as organizações sociais que ainda não haviam recebido na sexta (8): "As organizações deverão pagar os salários dos seus funcionários entre hoje [terça] e amanhã [quarta]".

Sobre os funcionários de vigilância e limpeza, informou que "a RioSaúde está trabalhando para regularizar os pagamentos das faturas dos serviços terceirizados ainda em aberto". Não respondeu, porém, sobre os salários errados. Em nota interna aos funcionários, disse que pagaria a gratificação pela Covid-19 de 20% até sexta (15).

Já a Secretaria de Estado de Saúde afirmou que repassou os salários das UPAs no dia 4 à Viva Rio e que os repasses de abril e maio estão previstos para a próxima semana. Não comentou, no entanto, a decisão da Justiça do Trabalho.

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