quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Casamento coletivo feito com a ajuda de voluntários reúne 46 casais LGBT no Recife


Cerimônia ocorreu na Zona Oeste do Recife, nesta quarta-feira (19). Voluntários montaram rede de solidariedade para tornar festa possível.




O amor de 46 casais formados por pessoas LGBT levou centenas de pessoas a um casamento coletivo realizado na noite desta quarta-feira (19), no bairro de Afogados, Zona Oeste do Recife. A cerimônia civil foi realizada por um juiz e teve a ajuda de uma rede de voluntários, que se uniu para tornar inesquecível o dia do “sim”.

A cerimônia foi montada inteiramente por voluntários que realizaram um mutirão para fornecer itens como bolo, música e fotografia. A rede de solidariedade se formou após a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) e do medo de alguns casais homoafetivos de perderem direitos após a posse do presidente eleito e de uma bancada mais conservadora do Congresso.


Um dos casais que decidiram antecipar a união perante a lei foi a técnica judiciária Júlia Hipólito e a arquiteta Camila Dantas. Elas se conheceram em setembro e aproveitaram a cerimônia conjunta para celebrar o amor que, mesmo recente, já é tão sólido.

Elas celebraram o fato de estar casando na mesma cerimônia que outros dois casais de amigos. Também ressaltaram a importância de poder formar o que chamam de "rede de resistência".

"Pensávamos em casar em julho, até a ameaça política que assolou o Brasil. Jamais imaginávamos que a cerimônia tomaria uma proporção tão grande, o que dirá com festa e tudo. Foi muito bom saber que, em meio a tanta energia ruim, surgiu uma corrente do bem. Isso aqui é um ato político e eu não me sentiria bem em não participar", explica Júlia.


 “Pensávamos que seria algo para quando a gente tivesse estabilidade, uma casa, estrutura. Mas apareceu a oportunidade e ficamos com medo de, no próximo ano, não podermos mais. Sentimos ameaçadas e vimos que isso não era coisa só nossa. Isso fez a gente se unir muito. Ninguém solta a mão de ninguém", diz a costureira Beatriz Medeiros, que casou com a estudante Ana Gabriella.



O receio de Júlia e Camila foi o mesmo que serviu de incentivo para que Adelmo Andrade e Daniel Lima decidissem participar. Eles adiavam a oficialização por problemas financeiros, mas recorreram à Defensoria Pública, como os outros casais, para conseguir isenção das taxas de habilitação para a cerimônia.

"Nós costumamos dizer que não antecipamos o casamento. Era algo que aconteceria em outras circunstâncias, isso é fato, mas, na verdade, só deixamos de adiar. Tivemos um apoio grande dos nossos familiares e amigos. Teve até briga, porque só podíamos trazer seis convidados. O que importa é celebrar nosso amor rodeado de tanta gente boa", diz Daniel.


Os casamentos foram celebrados pelo juiz Clicério Bezerra, da 1ª Vara de Família e Registro Civil da Capital. Foi ele quem celebrou, no Recife, o primeiro casamento homoafetivo do Norte e Nordeste, além do primeiro registro com dupla paternidade, o primeiro caso de multiparentalidade e um caso de paternidade afetiva de um tio em relação a duas sobrinhas.

Apesar de tantos "primeiros casos", ele afirma que não é ele quem abre as portas da Justiça para as diversas formas de família.

"A gente, na Justiça, só pega a tela e coloca a moldura. Em 2018 faz sete anos do primeiro casamento homoafetivo que celebrei e ser chamado para oficializar a união dessas dezenas de pessoas, em dias de tanta intolerância, é muito importante. Isso aqui é um exercício de cidadania. Queremos que todos se assumam e possam exercer seu direito de cidadãos que são. Família vai muito além dos laços de sangue e dos vínculos jurídicos. Família é afeto", explica o juiz.

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