quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Crítica: 'Coringa' mostra como a sociedade cria psicopatas


O filme, que brilhou no Festival de Veneza e estreia no Brasil amanhã, apresenta o arqui-inimigo do Batman a partir de uma visão pautada pela realidade, ainda que sombria



Não é estranho que, no ano em que o Batman completa oito décadas de existência, todos os holofotes estejam voltados para o arqui-inimigo do homem-morcego. Afinal de contas, o Coringa sempre conseguiu despertar reações extremadas do público, seja de medo ou de admiração. Todo esse alarde se repete com o lançamento do filme sobre o palhaço criminoso. O longa-metragem chega aos cinemas brasileiros amanhã, com uma estrondosa repercussão que antecede sua estreia, seja pelos elogios derramados à atuação de Joaquim Phoenix (possível postulante ao Oscar) no papel-título ou pela crítica de que a obra pode incentivar comportamentos violentos.

Dirigido por Todd Phillips, "Coringa" é muito mais do que um filme de super-herói. Deixando de lado as características atribuídas ao gênero, a proposta é utilizar o rico universo criado nas HQs como ponto de partida para um drama realista, que explora todas as nuances do vilão. Esse perfil fez com que o longa levasse para casa o Leão de Ouro, prêmio máximo do Festival de Veneza, no início de setembro.

Mas o reconhecimento não tornou a obra imune à problematização. Há uma preocupação de que o personagem sirva de inspiração, especialmente para os chamados "celibatários involuntários", homens que costumam propagar discurso de ódio contra minorias políticas na internet. Por conta disso, nos Estados Unidos, o FBI chegou a alertar o exército sobre possíveis ataques violentos durante sessões do filme.

Parafraseando a justificativa da cineasta argentina Lucrécia Martel, presidente do júri de Veneza, "Coringa" é um "poderoso retrato do nosso tempo". E é por espelhar algo tão latente que ele não deve ser ignorado. Embora estejam presentes algumas referências à "A piada mortal" (1988), graphic novel de Alan Moore, o roteiro reinventa a origem do espalhafatoso bandido. O filme é ambientado em uma Gothan City assolada por problemas sociais, entre o final dos anos 1970 e começo dos anos 1980. Neste cenário desolador, vive o perturbado Arthur Fleck, um palhaço fracassado, que vive com a mãe e sonha fazer sucesso no stand-up.


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